Día de los Muertos: altares e memória no México

Cheguei a Oaxaca no último dia de outubro, quando a cidade inteira já cheirava a cravo-de-defunto. Havia-os por toda a parte — amontoados nas bancas do mercado, a transbordar dos baldes, entrançados em arcos por cima das portas. Aquele laranja profundo e empoeirado a que os mexicanos chamam cempasúchil, a flor dos mortos. Tinha vindo para o Día de los Muertos a julgar que sabia mais ou menos o que esperar e, ao fim de uma hora, percebi que não sabia nada.
Quero dizê-lo com franqueza, porque eu própria me enganei na minha cabeça antes de vir: isto não é o Halloween. Não é uma fantasia, não é um tema macabro, não é um cenário exótico para uma fotografia. Nos dias 1 e 2 de novembro — o Dia de Todos-os-Santos e o Dia dos Mortos — as famílias mexicanas acolhem em casa os seus entes queridos durante uma noite. Aqui, ninguém tem medo dos mortos. Têm saudades deles e convidam-nos a regressar. Passei três dias a aprender a olhar para a morte como Oaxaca olha para ela, e isso deslocou alguma coisa dentro de mim.
A ofrenda, e tudo o que ela contém
O coração de tudo é a ofrenda — o altar que cada família ergue para aqueles que perdeu. O primeiro onde me deixaram entrar pertencia a uma mulher chamada Lourdes, que me fez sinal para subir as suas escadas como se eu fosse uma velha vizinha. Fotografias dos pais e de um irmão estavam encostadas à parede. À frente: velas, um copo de água, uma pequena taça de sal, um pan de muerto redondo e doce polvilhado de açúcar, e as coisas de que os defuntos tinham gostado em vida — um maço de cigarros, uma garrafa de mezcal, um baralho de cartas gasto. E cravos-de-defunto, sempre cravos-de-defunto, com as pétalas espalhadas a formar um caminho até à porta para que as almas reencontrem o rumo pelo perfume.
Nada no altar é decorativo. A água é para a sede da longa viagem. O sal purifica. A vela é uma luz para os guiar. Até as caveiras de açúcar — as calaveras, sorridentes e pintadas de cores impossíveis — nada têm de mórbido de perto; trazem um nome na testa, o nome de um ser amado. La Catrina, esse esqueleto elegante sob o seu grande chapéu de plumas, não é um fantasma mas uma branda brincadeira: ricos ou pobres, acabamos todos iguais, então mais vale irmos ao encontro da morte bem vestidos e com um sorriso nos lábios.
A noite no cemitério
Na noite do dia 1, parti com um pequeno grupo rumo ao cemitério de uma aldeia afastada da cidade. Esperava, em parte, algo encenado para os visitantes. Foi o contrário. As famílias estavam sentadas em cobertores ao pé das campas dos avós, velas a tremeluzir dentro de frascos, uma guitarra algures no escuro, o murmúrio baixo das conversas — entre vivos e, com a mesma naturalidade, com os mortos. Alguém tinha trazido um termo de chocolate quente. Uma avó falava ao neto de um tio que ele nunca conhecera. Não era triste. É a coisa mais terna que alguma vez me deixaram ver.
« Aqui, ninguém tem medo dos mortos. Têm saudades deles e convidam-nos a regressar — uma noite por ano, à luz das velas. »
Quero ser honesta também quanto ao lado prático, porque me apanhou de surpresa. O México fica fora da UE, por isso nada de roam-like-at-home aqui — o meu plano habitual teria sido inutilizável ou carríssimo, e fiquei contente por ter tratado de um eSIM local antes de aterrar. E nestas vigílias de aldeia, a rede simplesmente cede: milhares de telemóveis num lugar já mal coberto, e o sinal cai a zero. O mapa que tinha descarregado na véspera, no wifi da guesthouse, foi a única razão por que encontrei o cemitério e, horas mais tarde, o caminho de volta. Ali, prevês a ausência de rede — não lutas contra ela.
Onde estar, e como se comportar
Oaxaca e a ilha de Janitzio, no lago de Pátzcuaro, são os dois lugares mais associados a estas noites, e por boas razões — as vigílias à luz das velas são ali extraordinárias. O grande desfile da Cidade do México é uma coisa diferente, mais recente, popularizada por um filme e tornada um verdadeiro espetáculo de Catrinas gigantes ao longo do Paseo de la Reforma; giro, mas não o coração tranquilo da festa. A UNESCO classifica toda esta tradição como património cultural imaterial e, ali de pé naquele cemitério, percebi exatamente porquê.
A coisa mais importante que aprendi não foi onde ir mas como estar lá. São campas verdadeiras, um luto verdadeiro, famílias verdadeiras na única noite em que os seus mortos voltam a casa. Pede autorização antes de fotografares alguém ou um altar — e aceita um não como uma resposta inteira. Melhor ainda, durante as vigílias, guarda o telemóvel por completo. Tirei umas quantas fotografias ao início da noite e depois arrumei a máquina de vez, e a noite abriu-se no instante em que deixei de tentar capturá-la.
📶 A dica de Sarah
Para o Día de los Muertos, o México fica fora da Europa — nada de roam-like-at-home, por isso um eSIM local que ativas antes de aterrar poupa-te tanto o pânico da chegada como a fatura de roaming. Depois, prevê a multidão: nas vigílias de Oaxaca e de Pátzcuaro, milhares de telemóveis saturam uma rede já frágil e o teu sinal vai desaparecer, por isso descarrega um mapa offline e a morada do teu alojamento enquanto ainda estás no wifi. E a verdadeira dica — durante as vigílias no cemitério, desliga o telemóvel e está simplesmente presente; é a noite íntima de uma família, não conteúdo. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel aqui em 30 segundos e encontra o teu plano na página de destinos (para uma viagem europeia mais alargada, um plano UE/EEE também serve).
O que levo comigo
Vim a Oaxaca para ver uma festa e parti depois de me terem ensinado algo de que ignorava precisar. Nós escondemos os nossos mortos; aqui, põem-lhes um lugar à mesa e contam as suas histórias à luz das velas, e o luto alivia-se por ser partilhado a descoberto. Penso no altar de Lourdes mais do que esperava — o copo de água, os cigarros, o caminho de cravos-de-defunto até à porta. Já não penso na lembrança como em algo triste. Penso nela como em pousar uma luz, e deixar a porta aberta.
— Sarah, em Oaxaca, com pétalas de cravo-de-defunto coladas aos sapatos e o coração mais cheio.