De norte a sul do Vietname, de comboio e de scooter

Se já me leste antes, conheces o meu problema: acabo sempre por me ver dentro de comboios. O Japão, depois um comboio noturno tailandês, e agora este — a Reunificação, a longa coluna de ferro que percorre o Vietname em todo o seu comprimento, de Hanói a norte até Saigão a sul. Cerca de 1 700 quilómetros e um dia e meio se o fizeres de uma só vez. Eu não o fiz de uma só vez. O truque, fui aprendendo, é dividir a grande linha em capítulos.
Percorri-a então aos bocados, com uma scooter a preencher os vazios que os carris não alcançam. O comboio para as longas distâncias e a costa; duas rodas para as montanhas e as aldeias. É a forma mais vietnamita de viajar que consegui encontrar: aqui, tudo se mexe, sem parar, em cima de qualquer coisa com motor, e o país é generoso o suficiente para te convidar a fazer parte disso.
A costa de comboio
O troço de que toda a gente te fala é o que vai entre Huê e Đà Nẵng, onde a via se agarra ao desfiladeiro de Hải Vân e onde o mar da China Meridional se abre por baixo da janela, de um azul impossível, enquanto o comboio se inclina contra as falésias. Eu tinha reservado esse segmento online a partir de um café na véspera à noite, um café com ovo a arrefecer ao lado do telemóvel — o Vietname é conectado, dados baratos e 4G quase por todo o lado ao longo da costa, e reservar os teus troços de comboio à medida que avanças é metade da liberdade da viagem. Passei o desfiladeiro inteiro com a cara contra o vidro e o telemóvel virado para baixo. Há janelas que não se fotografam. Sentamo-nos dentro delas, e mais nada.
« O comboio leva-te ao longo da costa. A scooter leva-te para fora do mapa. Tu queres os dois. »
Os capítulos de scooter eram o outro tipo de conexão. Lá em cima, bem a norte, nas voltas de montanha perto de Hà Giang, a rede afina-se como deve ser num sítio assim tão isolado — sólida nas vilas, ausente nos altos desfiladeiros entre elas. Foi exatamente aí que me apoiei num mapa offline e num itinerário gravado com antecedência, e exatamente aí que fiquei contente por ter instalado o meu eSIM antes de aterrar em vez de esperar por um quiosque no mercado de uma aldeia. Lá em baixo, nas cidades, era o outro extremo: Grab para tudo, uma mota chamada com dois toques, um jantar pedido para uma guesthouse que eu não saberia nomear em vietnamita.
Um país que não para quieto
Entre os carris e a estrada, o Vietname desenrolou-se em texturas: o bairro antigo de Hanói às 6 da manhã, já barulhento de pequenos-almoços; um beliche a baloiçar rumo ao sul na escuridão; uma scooter ao ralenti num miradouro de montanha enquanto um miúdo me vendia a melhor banana da minha vida. Os dados nunca foram o objetivo. Era a utilidade discreta por baixo — um bilhete de comboio aqui, um Grab ali, uma videochamada para casa a partir de um mercado noturno porque, como sempre, há coisas que se mostram.
📶 A dica de Léa
Reserva os teus troços de comboio à medida que avanças — os sites e as apps permitem apanhar um lugar um ou dois dias antes, e a porção costeira Huê–Đà Nẵng vale a pena planear em redor dela. Na cidade, o Grab substitui os táxis e metade dos teus jantares. Para as voltas de scooter do norte, descarrega um mapa offline e guarda o teu itinerário: os altos desfiladeiros não têm rede. Instala o teu eSIM antes de aterrar para reservares e navegares logo na primeira manhã. Verifica o teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano Vietname na página destinos.
O que fica comigo
Três meios de transporte, um país, de norte a sul. Cheguei a pensar que ia apanhar o famoso comboio; parti percebendo que o comboio era apenas o fio, e que a scooter e as cidades eram as contas enfiadas nele. O Vietname recompensa a viajante que continua a mexer-se e fica só o suficiente conectada para improvisar — mudar um plano num café, encontrar o desfiladeiro antes da noite, manter o fio com casa entre dois tipos de motor muito diferentes.
— Léa, ainda, não se sabe como, entre dois comboios.