Uruguai: Montevideu, Colonia e a costa tranquila

Cheguei ao Uruguai quase por acaso — um ferry desde Buenos Aires, um vago plano de «ir ver a costa uns dias». Fiquei duas semanas. É um país pequeno, do género que cabe na cabeça: uma capital à beira de água, um rosário de vilas de praia a leste, e uma calma lenta e salgada que atravessa tudo isto como uma maré baixa que nunca volta a subir realmente. Vindo de um país que venera o tamanho e o barulho, o Uruguai fez-me o efeito de um fôlego suspenso. Gostei dele logo de imediato.
O que me prendeu primeiro foi o ritmo. Ninguém parece ter pressa aqui. As pessoas levam um termo debaixo de um braço e uma cabaça escavada na outra mão, bebericando o mate por uma palhinha de metal nos bancos dos jardins, no paredão, na praia, no lugar do passageiro de um carro em andamento. Não é tanto uma bebida como uma forma de marcar o tempo. Em dois dias, já tinha comprado a minha própria cabaça, mal comprada, e também me tinha metido nisso.
Montevideu e a sua rambla
Montevideu é a capital mais suave que alguma vez percorri. A sua grande atração não é um monumento, é a rambla — um longo passeio à beira-mar que se estende por quilómetros ao longo do Río de la Plata, tão largo que já é meio mar. Percorri-a quase todas as noites, por entre os pescadores, os patinadores e famílias inteiras instaladas com o seu equipamento de mate, a ver um rio castanho e dourado, grande como um oceano, virar ao cor-de-rosa ao pôr do sol. Aí está a verdadeira alma da cidade: não um monumento, um hábito.
De dia, vagueava pela Ciudad Vieja, a cidade velha, onde fachadas Art déco descascadas se debruçam sobre as ruas de calçada e onde o Teatro Solís se ergue, altivo e pálido. Ao meio-dia, seguia o faro até ao Mercado del Puerto — um mercado coberto de ferro mergulhado no fumo da lenha, ladeado de parrillas onde o asado é um assunto sério e sem pressas. Sentei-me ao balcão, apontei para a grelha com o dedo, e comi mais carne grelhada do que uma só pessoa devia, tudo regado com um copo de tannat, o tinto escuro da região. Numa boa noite, algures na cidade velha, ouves arrancar os tambores do candombe — esse ritmo afro-uruguaio profundo que parece subir pela calçada.
«Aqui, o mar não é uma vista que se vai procurar — está simplesmente sempre ali, ao fundo de cada rua.»
Quanto à ligação, Montevideu é fácil e digo-o com toda a franqueza. Estamos na América do Sul, não na Europa — não há roam-like-at-home por aqui, por isso tratei dos meus dados antes de partir em vez de apostar no roaming. Feito isto, a capital comportou-se como qualquer cidade bem coberta: sinal sólido ao longo da rambla, mapas que carregam num instante, videochamadas para casa de um banco de frente para a água. Servi-me dele para encontrar as parrillas, verificar os horários do ferry e enviar ao meu irmão um bocado de vídeo dos tambores do candombe, porque nenhuma mensagem conseguia transportar aquele som.
Colonia, e a estrada para leste
Colonia del Sacramento é a outra razão para vir, e merece-o bem. A duas horas a oeste de Montevideu — e a apenas uma hora de ferry de Buenos Aires — o seu Barrio Histórico é um emaranhado de ruelas de calçada classificado pela UNESCO, uma cidade velha primeiro portuguesa e depois espanhola, cujas ruas foram traçadas a olho em vez de a régua. Subi o farol pela vista e depois fiz a única coisa sensata: nada. Sentado num degrau gasto, a ver a luz virar ao âmbar sobre a pedra antiga, a deixar uma tarde dissolver-se.
Depois desviei-me para leste ao longo da costa, ali onde o Uruguai guarda as suas praias. Punta del Este é a famosa — uma estância balnear chique onde La Mano, aquela mão gigante esculpida, arranha a areia para de lá sair, e onde Casapueblo se espraia, branca e estranha, ao longo das falésias de Punta Ballena. É mais animada, mais espalhafatosa; passei lá uma noite e segui caminho. Um pouco mais adiante, José Ignacio é o que Punta talvez tenha sido antes do dinheiro: uma minúscula aldeia de praia, um farol, areia longa e deserta, uma espécie de sossego de pés descalços que os entendidos vêm procurar de longe.
A cobertura aguentou-se bem em todo este troço — Punta e a costa das estâncias estão bem servidas, e a estrada principal nunca me deixou às escuras. Mas a noite mais estranha e mais bonita da viagem foi o único sítio que, justamente, não está coberto: Cabo Polonio. Deixas o carro e sobes para um 4x4 que balança nas dunas para lá chegar, uma aldeia sem eletricidade de rede, leões-marinhos que ladram sobre os rochedos por baixo do farol, e — de propósito — quase nenhum sinal. O meu telemóvel calou-se, as estrelas saíram, absurdamente numerosas, e dei-me conta de que não lhe tinha olhado há horas.
📶 O conselho de Yann
Trata dos teus dados antes de aterrar, porque o Uruguai está fora da UE e não há roam-like-at-home por aqui — não vais querer pôr o pé na terra à procura de ligação. Uma vez ativa, conta com uma cobertura confortável em Montevideu, Colonia, Punta del Este e ao longo da estrada costeira. A única zona morta voluntária é Cabo Polonio: está fora da rede de propósito, por isso descarrega um mapa offline e avisa alguém do teu plano antes da viagem de 4x4. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (se a tua viagem também passar pela Europa numa etapa à parte, um plano UE/EEE cobre igualmente essa parte).
O que levo comigo
O Uruguai não me submergiu, e é precisamente isso o presente. Sem sítios monumentais para riscar à força — apenas uma rambla para percorrer ao crepúsculo, uma cabaça de mate que arrefece na minha mão, uma costa que se mantém calma e que se sente segura, e uma noite fora da rede sob mais estrelas do que eu conseguia contar. Parti mais leve do que cheguei. Mantém os teus dados tratados para as cidades e a estrada costeira, deixa Cabo Polonio tirar-te a rede pelo tempo de uma noite, e deixa este pequeno país tranquilo abrandar-te até ao fundo.
— Yann, o termo numa mão, o Río de la Plata a virar ao cor-de-rosa.