A Sérvia que nunca dorme: Belgrado, Novi Sad e os Balcãs

Cheguei a Belgrado numa tarde de trinta graus, e a primeira coisa que percebi foi que esta cidade vive segundo outro relógio. Aqui, as pessoas jantam quando outras capitais se vão deitar, e só então é que a noite começa mesmo. Tinha vindo para uns dias tranquilos entre duas viagens europeias; Belgrado tinha outros planos, e eu deixei-a fazer. A Sérvia está pousada em pleno coração dos Balcãs, uma encruzilhada que toda a gente quis controlar há dois mil anos, e tu sente-lo no instante em que te pões sobre as muralhas da velha fortaleza — lá em baixo, o Sava lançava-se no Danúbio numa larga costura cinzento-esverdeada, e atrás de mim a cidade empilhava os séculos sem se desculpar, do otomano ao habsbúrgico, ao socialista, ao acabadinho de fazer.
Belgrado, a cidade que se recusa a dormir
Comecei por Kalemegdan, a fortaleza de Belgrado, empoleirada no esporão onde os dois rios se encontram. Hoje é um parque, cheio de corredores, de partidas de xadrez e de crianças sobre os velhos canhões, mas a ossatura da cidadela continua ali, e a vista ao pôr do sol fá-lo calar. Dali, desci até Skadarlija, a rua de calçada e boémia onde a música de acordeão transborda das tabernas e onde o jantar dura três horas lentas. Mais tarde, uns amigos levaram-me aos splavovi — os bares-barcaça atracados ao longo das margens — e a noite dissolveu-se num longo borrão morno de música sobre a água.
« Belgrado não dorme, negoceia com a aurora — e a única coisa que se esgotou antes de mim foi a boa vontade do meu plano de dados. »
Aqui está a parte que quero dizer com honestidade, porque apanhou duas pessoas do meu hostel: a Sérvia está na Europa, mas não está nem na UE nem no EEE. Parece uma nota de rodapé até a fatura chegar. O « roaming como em casa » europeu, que faz o teu plano funcionar sem pensar nisso em França, na Croácia ou na Grécia, geralmente não cobre a Sérvia — exatamente a mesma armadilha que a Suíça ou o Reino Unido. Vários viajantes que cruzei viram-se com custos de roaming fora do plano logo à passagem da fronteira, às vezes sem darem por isso antes do SMS de aviso. Eu tinha tratado de um eSIM antes de aterrar, e enquanto eles racionavam as mensagens, eu tinha dados desde o autocarro do aeroporto.
Novi Sad, a fortaleza e o norte mais calmo
A uma hora de comboio para norte, Novi Sad é a irmã mais serena de Belgrado — uma cidade velha da Europa Central de fachadas pastel e praças com esplanadas, e do outro lado do Danúbio a grande fortaleza em estrela de Petrovaradin que vela por ela. Subi pela vista e pela famosa torre do relógio de ponteiros invertidos, o grande a contar as horas para que os barqueiros a lessem ao longe sobre o rio. Todos os julhos, esta mesma fortaleza enche-se de cem mil pessoas para o festival EXIT; fora de época, tinha as muralhas quase só para mim, apenas o vento e o rio castanho e lento lá em baixo.
A partir de Novi Sad, dediquei um dia a percorrer os mosteiros da Fruška Gora, aquelas colinas baixas e verdes salpicadas de santuários ortodoxos e de pequenas quintas vinícolas. Foi aí que a cobertura ficou honesta com a geografia sérvia. Em Belgrado e em Novi Sad, a rede era rápida e imperturbável; nas colinas e no campo mais profundo, ia-se adelgaçando, caindo a uma única barra entre as aldeias. Voltava sempre — eu tinha apenas aprendido a descarregar o mapa antes de sair da cidade.
Rakija, ćevapi e a estrada para sul
A Sérvia é também um país que se prova. A rakija — a aguardente de fruta que aparece no início de cada refeição e no fim de cada discussão — foi-me servida por uma avó que se recusava a deixar-me pagar e por um empregado de bar que exigia que eu provasse três espécies. Os pratos de ćevapi, aquelas pequenas almôndegas alongadas de carne picada grelhada com cebola crua e pão, tornaram-se o meu almoço por defeito. Desci mais para sul, até Niš, mais áspera e mais antiga, onde as camadas de império afloram ainda mais, e mantive durante todo o caminho um fio solto com as pessoas que ficaram em casa — uma foto da fortaleza, uma mensagem de uma só linha de uma taberna, o preço de um café pago em dinares, nunca em euros, porque a Sérvia guarda também a sua própria moeda.
📶 A dica de Hugo
A armadilha sérvia: o país está na Europa mas fora da UE/EEE, por isso o teu plano europeu « como em casa » geralmente não o cobre — espera custos de roaming fora do plano, exatamente como na Suíça ou no Reino Unido, se chegares sem nada preparado. Instala um eSIM antes de aterrar e ativa-o para que funcione mal chegues à cidade. A cobertura é sólida em Belgrado e Novi Sad, mais fina nas colinas: descarrega um mapa offline para a Fruška Gora e para o campo. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano Sérvia na página de destinos (se a tua viagem passar também por países da UE/EEE, o teu plano europeu habitual cobre-os, esse — um plano UE/EEE também serve).
O que levo comigo
A Sérvia ofereceu-me uma capital elétrica, uma cidade-fortaleza que sabe ficar imóvel, e um calor em cada mesa que eu não esperava e que não vou esquecer. É europeia até aos ossos, e no entanto fica logo fora das linhas que tornam o teu plano de dados simples — uma pequena conta de fronteira que custa cinco minutos antes de partir. Tratas disso uma vez, depois deixas Belgrado deitar-te demasiado tarde, com as duas mãos livres.
— Hugo, de pé tarde demais na margem, a ver dois rios tornarem-se um só.