As estradas mais espetaculares do mundo
Há estradas que servem para ir a algum sítio. Umas poucas são esse sítio. Passei alguns anos a correr atrás dessa segunda espécie — aquelas em que arrancas sem te preocupares muito com o que há ao fundo, porque o fundo não é a questão. A questão é a curva seguinte, e a de depois, cada uma abrindo-se para um panorama que terias pago para ver e no qual acabaste de entrar por acaso.
Isto não é uma classificação. É uma lista curta das estradas que me fizeram parar mais vezes do que o meu horário podia permitir, rabiscada de memória e de um rolo fotográfico feito sobretudo de guardas de proteção e horizonte. Um aviso desde já: metade do que faz a magia destas estradas — o tempo, a luz, o simples facto de o desfiladeiro estar aberto — muda conforme o mês. Por isso conto-te o que vi, e assinalo-te o que muda.
Onde o mar faz o grosso do trabalho
A Great Ocean Road, na Austrália, mimou-me muito cedo. Percorres a costa sul de Victoria, com o oceano Antártico a atirar-se às falésias à tua direita, e depois surgem os Doze Apóstolos — agulhas de calcário erguidas ao largo, como se a terra tivesse mudado de ideias. Aprendi à minha custa que se veem melhor nos extremos suaves do dia do que ao meio-dia liso, por isso voltei para trás à procura da luz da tarde, e todo o parque de estacionamento fazia o mesmo. Uma precisão honesta: por lá conduz-se à esquerda, e as curvas junto à costa recompensam mais a paciência do que a velocidade.
A costa amalfitana, em Itália, é a mesma ideia com o volume no máximo. A estrada agarra-se à falésia por cima do mar Tirreno, com os limoeiros de um lado e o mergulho para o turquesa do outro, esgueirando-se por Positano e Ravello em vias claramente pensadas para burros. É de cortar a respiração e é lenta, e em pleno verão é as duas coisas ao mesmo tempo, no meio do trânsito. A Garden Route, na África do Sul, é mais suave — aquele troço a leste da Cidade do Cabo onde floresta, lagoa e litoral se revezam — e é a que entregaria a um principiante um pouco nervoso.
« As estradas mais bonitas não te levam a um panorama. Elas são o panorama, uma curva de cada vez. »
É aqui que uma ligação ganha discretamente o seu lugar, e mantenho-me honesto porque são os sítios onde isso conta mais. Em todas estas estradas, os miradouros espetaculares, o tempo de montanha e o estado sazonal das vias vivem por trás de uma rede — e essa rede desaparece no instante em que sais das aldeias. Guardo um mapa offline de todo o itinerário descarregado antes de partir, para que o ponto azul ainda funcione nas zonas brancas, e verifico as previsões e os encerramentos enquanto ainda tenho barras. Uma precisão justa para os viajantes europeus: se o teu plano já é UE/EEE, o roam-like-at-home segue-te pela Europa, por isso a costa amalfitana fica coberta como em casa. Fora disso — Austrália, África do Sul, em qualquer sítio onde o teu plano não chegue — trato de um eSIM local antes de descolar, para que o mapa e o tempo funcionem logo na primeira área de descanso com vista.
Onde é a montanha que trata disso
A Noruega é, acho eu, a versão mais pura de tudo isto. A Trollstigen dobra-se sobre si mesma em onze ganchos ao longo de uma parede, com uma cascata a despenhar-se ao lado, e é uma estrada sazonal — abre quando a neve se vai, em geral no fim da primavera, e fecha para o inverno, por isso verificas antes de apontar o carro para lá. Ao nível do mar, a Atlantic Ocean Road faz o contrário, saltando de ilhota em ilhota sobre pontes baixas que, no ângulo certo, dão a impressão de que o alcatrão te vai catapultar para o vazio; em dias calmos é sereno, mas quando o Atlântico está de mau humor as ondas passam por cima da estrada, e é essa a fotografia que toda a gente quer. A Transfăgărășan, na Roménia, tem o seu lugar aqui também, com o aviso mais firme de todos: trepa pelos Cárpatos num emaranhado de ganchos, e só está aberta no verão — mais ou menos de fim de junho ou julho até ao outono, conforme a neve do ano — por isso apresenta-te na primavera e vais encontrar uma barreira, não uma estrada. E depois há a Ring Road da Islândia, a Route 1, que dá a volta a toda a ilha ao longo de cerca de 1 300 quilómetros entre cascatas, praias negras e glaciares, aberta em toda a volta no verão mas com troços que fecham depressa assim que o inverno começa a corrigir o mapa.
O mito que já não passa de uma memória
Tenho de ser franco quanto à Route 66, porque o sonho e a realidade divergiram. A antiga estrada de Chicago a Santa Mónica foi oficialmente desclassificada há décadas, engolida em alguns pontos pelas autoestradas que a substituíram. O que dela resta hoje é fragmentado — pedaços soberbos e preservados de néon, deserto e América de diner que coses com desvios, em vez de uma única fita ininterrupta. Vale na mesma a pena. Parte apenas a saber que conduzes uma memória, com buracos, e não uma autoestrada contínua. A Hana Highway, em Maui, é o seu pequeno contrário intacto: uma estrada curta, tunelada na selva, com uns seiscentos cruzamentos e pontes de uma só via onde, mais uma vez, o trajeto vence largamente o destino.
📶 O conselho de Hugo
Antes de qualquer uma destas estradas, descarrega um mapa offline de todo o itinerário e faz uma captura do estado sazonal das vias — a Trollstigen, a Transfăgărășan e troços da Ring Road só estão abertos parte do ano, e em plena natureza vais cair em zonas brancas sem qualquer barra. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (se o teu plano já é europeu, o roam-like-at-home segue-te pela Europa; noutros sítios, um eSIM local mantém-te a explorar e a partilhar lugares).
O que reter
Escolhe a estrada, não o destino, e deixa-a dar o ritmo — metade do prazer é a permissão para parar. Conduz para as condições à tua frente, não para o horário atrás de ti: um gancho no nevoeiro, uma estrada costeira à hora errada, um desfiladeiro fechado pela estação fazem parte do jogo, e verificar antes de partir salva o dia. Leva a rede para planear e a disciplina de pousar o telemóvel na área de descanso com vista. A curva vai estar sempre lá. Tu também.
— Hugo, sempre a contar ganchos.