O Notting Hill Carnival: Londres com as cores das Caraíbas
Subi da estação de Westbourne Park no fim de semana feriado de agosto — a última segunda-feira do mês e o domingo que a antecede — e o baixo encontrou-me antes da luz do dia. Não se chega propriamente ao Notting Hill Carnival: ficamos absorvidos por ele, algures entre a saída do metro e o primeiro sound system, e a partir daí as ruas do oeste de Londres pertencem às Caraíbas. O maior carnaval de rua da Europa não te pede bilhete. Limita-se a abrir os braços e a puxar-te para dentro.
O ar atingiu-me primeiro: a pimenta e a pimenta-da-jamaica grelhadas de um frango jerk a fumegar numa esquina, o rum doce algures por trás, o protetor solar, o suor, a nota verde da erva esmagada sob os pés. Depois a cor — uma banda de mascarados a dobrar a esquina em lantejoulas e toucados de penas vertiginosos, ondulando devagar ao ritmo de uma soca, as lantejoulas agarrando a luz dourada e baixa. Fiquei ali, no meio de centenas de milhares de desconhecidos, e senti, de forma muito física, que tinha entrado em algo bem mais antigo e bem mais profundo do que uma festa.
Um carnaval nascido de uma comunidade
É fácil vir pelas penas e passar ao lado da história — e isso seria um erro. O Notting Hill Carnival nasceu da comunidade caribenha que ajudou a reconstruir a Grã-Bretanha do pós-guerra, num bairro que o final dos anos 1950 marcou pela violência racista e pelo assassínio de Kelso Cochrane. A ativista e jornalista trinitária Claudia Jones organizou em 1959 um cabaré caribenho em sala, um gesto de desafio e de reparação; o carnaval de rua tal como o conhecemos costuma datar-se de 1966. Por isso, quando os tocadores de steelpan afinaram os seus instrumentos e as velhas linhas de calypso flutuaram sobre a multidão, tentei ouvi-las a sério — não como uma música de fundo, mas como algo que uma comunidade construiu, defendeu e se recusou a largar.
Deixei um sound system reter-me quase uma hora. Ladeiam o percurso, cada um um muro de colunas e a sua própria nação soberana do som — reggae aqui, dancehall ali, soca e afrobeats duas ruas adiante. Sentes o baixo no esterno antes de o ouvires. As pessoas não olhavam; estavam dentro da música, e durante um bom bocado, eu também.
« As penas são o postal. O steelpan e o calypso são a razão. »
Aqui está a parte honesta e pouco glamorosa. Algures no aperto mais denso, junto a um sound system de Powis Square, quis enviar uma única mensagem a uma amiga — apenas o nome de uma esquina — e vi-a a rodar e depois a falhar. Centenas de milhares de telemóveis comprimidos em meia dúzia de ruas do oeste londrino sufocam qualquer rede; as antenas simplesmente não conseguem suportar toda a gente ao mesmo tempo, em parte nenhuma do mundo. E há uma segunda armadilha que tinha resolvido antes de partir: o Reino Unido saiu da UE, por isso o roam-like-at-home europeu em que me apoiava há anos já não cobria Londres como antes. Tinha uma eSIM britânica e, mesmo assim, naquela densidade, os dados arrastavam-se. O que de facto salvou a tarde foi o truque mais antigo do mundo — tínhamos combinado um ponto de encontro fixo e uma hora antes de nos separarmos.
O domingo para as crianças, a segunda para o rugido
Os dois dias têm duas almas. O domingo é o Children's Day — mais lento, mais suave, as famílias a ladear o percurso, os mais pequenos mascarados em fatos que os engolem por inteiro, os pais a dar uns toques de pintura nos rostos, radiantes. A segunda-feira é o grande desfile, o de voz plena: as bandas de mas no auge da sua elaboração, a energia do j'ouvert, o percurso num rio lento de penas, bandeiras e corpos a mover-se como um só. Fiz os dois, e ainda bem. O domingo mostrou-me a ternura por baixo do espetáculo; a segunda mostrou-me a escala.
Comi o frango jerk de pé, o prato de cartão em equilíbrio sobre o antebraço, o fumo a picar-me os olhos, o molho picante a escorrer pelo pulso — e foi uma das melhores coisas que comi no ano todo. Bebi um rum punch que provavelmente devia ter respeitado mais. Aprendi a ler a corrente da multidão — quando me deixar levar por ela, quando me enfiar numa entrada para deixar passar uma banda. Ao fim da tarde estava pegajosa de lantejoulas que não eram minhas, e isso era-me perfeitamente indiferente.
Quando o baixo finalmente para
O carnaval não se apaga em surdina; desliga-se. Ao cair da noite de segunda-feira, os sound systems calaram-se quase em cascata, e as ruas que tinham carregado um continente de dançarinos eram de repente apenas ruas londrinas húmidas, juncadas até aos tornozelos de confetes, penas e pratos abandonados. Voltei para a estação através do silêncio, os ouvidos a zumbir, e aquela calma pareceu-me quase desrespeitosa depois de toda aquela barulheira — como se a cidade tivesse prendido a respiração durante dois dias e só agora a libertasse.
📶 O conselho da Nora
Conta com o teu sinal a morrer nos troços mais densos — até um bom plano local se arrasta quando meio milhão de telemóveis partilham um punhado de ruas, por isso captura o teu mapa, o teu ponto de encontro e os endereços-chave enquanto ainda tens uma barra. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (o Reino Unido saiu da UE: o teu roam-like-at-home europeu muitas vezes já NÃO cobre Londres (taxas reintroduzidas) — é exatamente a armadilha; uma eSIM do Reino Unido/local é o bom reflexo, e a multidão do carnaval satura a rede por cima).
O que eu levo comigo
Vim pela cor e fiquei pelo sentido. O Notting Hill Carnival é um banquete para os sentidos — o fumo do jerk, o baixo no peito, as penas a flamejar na luz de agosto — mas, por baixo de tudo isto, vive o ato de alegria e de memória de uma comunidade, levado pelas ruas há quase sessenta anos. Vai pela ternura de domingo e pelo rugido de segunda, come o frango jerk, arranja uma eSIM britânica antes de partir, combinem onde se vão encontrar quando os telemóveis desistirem, e depois deixa os sound systems levarem-te. As lantejoulas acabam por sair. A história, não.
— Nora, ainda a cantarolar um calypso de que nunca saberei o nome.