Hanami no Japão: uma semana sob as cerejeiras em flor

Quase o perdi. Tinha reservado o Japão para o início de abril com meses de antecedência, como os guias te imploram que faças, e depois passei o inverno inteiro a vigiar as previsões como uma camponesa preocupada. As sakura não esperam por ninguém. Abrem quando assim o decidem — em geral entre o final de março e abril, consoante as regiões — e então, durante uma pequena semana de plena floração, oferecem-te a coisa mais bela do país antes de a deixarem cair. Vim por essa única semana frágil. Passei a viagem inteira aterrorizada com a ideia de chegar um dia tarde demais.
Hanami, literalmente, quer dizer « olhar as flores ». É esse o festival todo: as pessoas sentam-se debaixo das cerejeiras e olham. Sem palco, sem desfile. Apenas mantas sobre a relva, bentos que passam de mão em mão, e as árvores por cima a fazer o trabalho. Na primeira tarde, num parque de Tóquio, percebi que não tinha vindo ver um acontecimento. Tinha vindo sentar-me, muito imóvel, dentro de uma coisa que já estava a desaparecer.
Sentar-se debaixo das árvores em Tóquio
O meu primeiro piquenique foi no parque Ueno, porque toda a gente o diz e toda a gente tem razão e toda a gente também lá estava. Toldos lado a lado, famílias, estudantes, assalariados claramente saídos diretamente do escritório, e nós todos sob um teto baixo de rosa pálido. Alguém, duas mantas mais adiante, estendeu-me um gomo de tangerina sem uma palavra — uma pequena gentileza que mais tarde aprenderia ser, por si só, um ritual discreto. As pétalas caíam na brisa como confettis em câmara lenta e aterravam no meu chá, e ninguém as enxotava, porque é precisamente esse o objetivo.
Na manhã seguinte, preferi o Shinjuku Gyoen — mais calmo, com bilhete de entrada, e dezenas de variedades de cerejeiras que abrem em ritmos ligeiramente desfasados, o que faz durar a floração um pouco mais. Fiquei sentada duas horas a não fazer nada, ou quase. Vi um velho senhor fotografar o mesmo ramo de onze ângulos. Vi a luz mover-se. Para alguém que costuma encher cada minuto, era quase desconfortável, e depois deixou de ser.
« As cerejeiras não são belas apesar de caírem. São belas porque caem. »
Aqui vai a parte honesta e prática, entretecida no meio de toda essa quietude. A rede japonesa é excelente — mas em plena floração os parques famosos estão a abarrotar de gente, e dezenas de milhares de telemóveis no mesmo sítio põem de joelhos até um ótimo sinal. Aprendi-o à minha custa ao tentar carregar um mapa no meio de Ueno num domingo. O que verdadeiramente salvou a minha viagem foi consultar as previsões de floração — o sakura zensen, a « frente das cerejeiras » — em tempo real todas as manhãs antes de sair, enquanto ainda tinha uma ligação limpa. Tinha uma eSIM ativa desde o aeroporto, por isso, mal aterrei, já conseguia ver até onde tinha subido a frente e onde se anunciava a plena floração, o mankai. Com uma janela tão curta, esse simples olhar diário fazia a diferença entre apanhar o pico e andar atrás dele.
Seguir a frente até Quioto
Aquilo para que ninguém te prepara realmente é que a floração é um alvo em movimento. A frente sobe o arquipélago a partir do sul quente — chega primeiro a Okinawa, e semanas mais tarde arrasta-se até ao frio Hokkaido, no norte. Não se olham tanto as sakura, antes se tenta intercetá-las. Por isso, quando Tóquio começou a perder as pétalas, apanhei o comboio para Quioto, apostando que a cidade trazia uns dias de atraso. E trazia.
Quioto recompensou a aposta. Caminhei pelo Caminho dos Filósofos, aquela alameda ao longo de um canal ladeada de cerejeiras, com pétalas a flutuar na água por todo o percurso. No parque Maruyama, o velho coração hanami da cidade, voltei ao cair da noite para o yozakura — as árvores iluminadas à noite, uma única e imensa cerejeira-chorona a rubricar por cima da multidão como uma lanterna. Há algo de quase insuportável numa cerejeira à noite: iluminada por baixo, de uma doçura impossível, e já sabes que não estará ali na semana seguinte.
Tinha planeado seguir para oeste até Himeji, onde o castelo branco parece flutuar sobre fossos de flor de cerejeira, e fiquei sem dias antes de a floração ficar sem norte por trepar. Mas é isto, o hanami. Não vês tudo dele. Vês a tua semana, e deixas partir o resto — o que, creio eu, é a lição que as árvores te ensinam todo o tempo.
Mono no aware, numa expressão que não consigo traduzir
Há uma ideia japonesa que paira sobre toda a estação: o mono no aware, em suma a doce melancolia de saber que as coisas belas passam. Não vou fingir que a apreendo plenamente, sendo simples visitante. Mas senti-lhe a beira num banco de Maruyama, a ver as pétalas descer sob os holofotes, um pouco triste e completamente em paz ao mesmo tempo. Os japoneses não parecem chorar a queda. Fazem dela a festa. Essa inversão acompanhou-me até casa.
📶 A dica de Camille
O Japão fica fora da UE/EEE, por isso o roam-like-at-home não se aplica aqui — mas uma eSIM merece o seu lugar por duas razões. Primeiro, ficas online no segundo em que aterras, sem filas ao balcão dos SIM. Depois — e é este o ponto próprio do hanami — os grandes locais de floração estão apinhados no pico, e a multidão pode sufocar até a excelente rede japonesa: consulta então as previsões de floração todas as manhãs antes de chegares ao parque, enquanto o teu sinal está limpo. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (para uma viagem europeia mais ampla à ida ou ao regresso, um plano UE/EEE também serve).
O que levo comigo
Voltei sem nenhum grande monumento nas fotos — apenas uma semana de rosa, algumas pétalas achatadas num caderno, e a memória de estar sentada na relva a não fazer nada enquanto uma coisa rara se passava por cima da minha cabeça. O hanami não é uma casinha para assinalar. É uma semana pela qual corres para estares presente, sabendo que todo o interesse está em que acaba. Reserva absurdamente cedo, vigia a frente e, quando lá chegares enfim, pousa o telemóvel e olha, simplesmente. A queda é isso, o festival.
— Camille, sob um céu que já se ia deixando ir.