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🇧🇷 Festival · Rio

Carnaval do Rio: o sambódromo, os blocos e a rua

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By Romain · June 14, 2026 · 7 min read
Desfile de uma escola de samba no Sambódromo do Rio, dançarinos em fantasias de plumas sob os holofotes durante o carnaval

Aterrei no Rio quatro dias antes da Quarta-feira de Cinzas, e a cidade já tinha deixado de fingir que existia por qualquer outra razão. O carnaval brasileiro é uma data móvel, ligada à Páscoa, por isso cai em fevereiro ou no início de março — em plena força do verão austral. O calor saltou-me em cima logo na ponte de embarque do avião, húmido e pesado, e nunca mais me largou a sério. No tempo que demorei a pousar a mala, já havia tambores a bater algures lá em baixo, e segui o som como toda a gente.

Imaginamos sempre o Sambódromo — as plumas, os carros alegóricos, os holofotes da televisão. Essa parte existe, e já lá chego. Mas o carnaval que eu vivi foi sobretudo na rua, nos blocos gratuitos que engolem bairros inteiros, com o suor a escorrer-me pelas costas e brilhantes colados ao antebraço três dias depois de os ter posto ali.

O Sambódromo, visto das bancadas baratas

O Sambódromo Marquês de Sapucaí é a espinha dorsal do carnaval oficial: uma longa avenida de betão ladeada por bancadas, onde as grandes escolas de samba desfilam ao longo das noites de carnaval. É uma competição, julgada e pontuada, e tu sentes isso assim que uma escola entra — milhares de pessoas numa só escola, cada fantasia ao serviço de uma história, a bateria a martelar tão forte que as bancadas vibram debaixo de ti. Eu tinha comprado um bilhete de bancada lá bem no alto, e francamente foi a escolha certa: dali, vês toda a avenida, os carros alegóricos que avançam como catedrais iluminadas.

Tinham-me dito para reservar tudo absurdamente cedo, e é verdade. Os bilhetes, uma cama, até um bom lugar — tudo se esgota meses antes. Por pouco não consegui sequer um quarto.

« Uma escola de samba não atua para ti — ela atravessa-te, e tu ficas a contar as plumas que tens no cabelo. »

Foi aí que a realidade prática se convidou. Eu queria escrever a um amigo que tinha lugar noutra secção, e a minha mensagem simplesmente recusava-se a sair. Com dezenas de milhares de telemóveis apinhados numa só avenida, a rede cedeu — os dados a passo de caracol, as chamadas a cair no silêncio. Não é tanto um problema do Rio como um problema de grande festival: por todo o lado, as multidões densas saturam as antenas. O Brasil está fora da UE, por isso nada de roam-like-at-home aqui; eu tinha um eSIM local e, mesmo assim, na pior das confusões, recorri ao truque mais antigo do mundo — tínhamo-nos combinado num ponto de encontro físico com antecedência, um portão específico, uma hora específica.

Os blocos: o carnaval verdadeiramente gratuito

Se o Sambódromo é o carnaval que tu vês, os blocos são o carnaval que te engole. São cortejos de rua gratuitos — um camião com aparelhagem ou uma banda de sopros, uma bandeira, e um rio de gente em fantasia que o segue pelas ruas. O Cordão do Bola Preta serpenteia pelo centro histórico e é um dos mais antigos e mais adorados. A Lapa ruge debaixo dos seus arcos à noite; Santa Teresa é mais íngreme, mais solta, mais boémia; Ipanema desce a correr para a praia. Sem bilhete, sem portão, sem horário em que possas confiar a sério. Ouves os tambores e vais atrás.

Passei uma tarde inteira a seguir uma batucada cujo nome nunca cheguei a saber, por ruas que não teria conseguido encontrar num mapa, a cantar letras que não conhecia com gente que nunca mais voltarei a ver. É isso, um bloco: não te pergunta quem és. Guardava o telemóvel num bolso interior com fecho e quase não levava nada — os avisos sobre carteiristas no aperto da multidão são reais, e a defesa mais simples é ter pouco de valor contigo e as duas mãos livres para aplaudir.

Quando acaba

O carnaval não se apaga devagar; pára. A Quarta-feira de Cinzas chega e a cidade expira de uma só vez. Os camiões com aparelhagem calam-se, as fantasias voltam para os armários, e as mesmas ruas que carregaram cem mil dançarinos passam de repente a ser apenas ruas, juncadas de brilhantes e confetes que a chuva ainda não lavou. Andei pela Lapa naquela manhã, com a cabeça cheia de barulho, e o silêncio quase me pareceu malcriado.

📶 A dica de Romain

Nos blocos mais densos, conta com o teu sinal a estrangular-se — até um bom forfait local fica lento quando cinquenta mil telemóveis partilham uma só antena. Combina um ponto de encontro físico com o teu grupo antes de mergulhares lá dentro, e tira capturas de ecrã do teu mapa e das tuas moradas enquanto ainda tens uma barra de rede. Como o Brasil está fora da UE, trata da tua ligação antes de aterrar: verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu forfait na página de destinos (se passas por uma escala europeia, um forfait UE/EEE cobre também esse troço).

O que levo comigo

O Sambódromo deu-me o espetáculo — a escala de uma escola de samba é uma coisa que te atravessa pela planta dos pés. Mas o que trouxe para casa foi a rua: os blocos, os desconhecidos, o deixar-me ir de seguir um tambor até a luz mudar. Reserva a tua cama absurdamente cedo, não leves quase nada contigo, combinem onde se vão reencontrar quando os telemóveis desistirem, e depois deixa a cidade levar-te. Os brilhantes acabam por sair. O resto, não.

— Romain, ainda encontro lantejoulas nos meus bolsos.

Romain

AEY travel-journal writer

Romain

Romain backpacks across Latin America — Andes, altiplano, night buses. Short of breath, but eyes full.

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