A volta à América do Sul, de mochila às costas: o gringo trail
O plano cabia numa linha do meu caderno: Peru, Bolívia, o grande sul, e depois a Colômbia na subida. Toda a gente chama a isto o gringo trail, e não há vergonha nenhuma nisso — é um sulco bem marcado, e não é por acaso. Aquilo para que ninguém te prepara mesmo é a escala. A América do Sul não é um país que se atravessa, é um continente com o qual se negoceia, um autocarro de vinte horas de cada vez.
Parti com uma mochila de 60 litros, dois pares de meias a menos, e muito mais tempo do que dinheiro. Três meses depois, voltei mais leve em todos os sentidos. Foi mais ou menos assim que correu, e ficam aqui as poucas coisas que gostava que alguém me tivesse dito à partida.
O Peru: o ar rarefeito e as velhas pedras
Cusco fica no alto — à volta dos 3 400 m — e a cidade não te deixa esquecer isso. Subi um andar até ao meu hostel e cheguei lá acima a bufar como se tivesse corrido uma maratona. É o soroche, o mal de altitude, e o único verdadeiro remédio é a paciência: chegas, abrandas, bebes água, e deixas passar dois dias antes de subir mais. Os locais juram pela infusão de folhas de coca, que se encontra por todo o lado nos Andes e que me ajudou um pouco. Não sou médico — se a altitude te bater com força, ouve o teu corpo e pede conselho numa farmácia ou a um guia no local.
A partir de Cusco, fiz o vale sagrado com calma, e depois o Machu Picchu. Não vou tentar vender-te o nascer do sol sobre as ruínas — já viste a fotografia, e o verdadeiro é mais bonito e mais sereno do que ela deixa supor. Reserva o teu bilhete de entrada com antecedência, porque os horários são marcados e esgotam mesmo. Essa reserva, feita de um beliche de hostel numa ligação trémula, foi a coisa mais útil que o meu telemóvel fez a semana inteira. E é mais ou menos toda a história do lado da rede: fora das cidades vai e vem, e nos autocarros de longa distância desaparece durante horas. Um eSIM regional da América Latina poupava-me a caçar um novo cartão SIM em cada fronteira, e umas barrinhas no momento certo — para confirmar um hostel ou enviar um « ainda vivo » antes de um autocarro noturno — limavam as arestas. Nada mais. A viagem nunca girou à volta do telemóvel.
« O continente não se atravessa. Negoceia-se, um autocarro de vinte horas de cada vez. »
A Bolívia: o espelho e o altiplano
La Paz é a maior cidade mais alta onde alguma vez pus o pé, estendida por um desfiladeiro lá pelos 3 600 m, e mais uma vez sente-se. Mas o postal está mais a sul: o salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo. Fui na estação das chuvas, quando uma fina película de água transforma tudo num espelho e o horizonte simplesmente deixa de existir — o céu em baixo, o céu em cima, tu no meio. Nunca me senti tão pequeno e tão feliz ao mesmo tempo. No altiplano, a rede é quase nula, e é precisamente esse o interesse; antecipas, descarregas um mapa offline antes do passeio de 4x4 e avisas o hostel da hora a que mais ou menos te devem ir buscar. À antiga, e resulta.
O grande sul: a Patagónia, de roupa de inverno no verão
Eis o quebra-cabeças para um viajante do norte: as estações estão invertidas. O inverno austral vai grosso modo de junho a agosto, por isso enquanto a Europa transpira, a Patagónia está fria, pobre em luz e maravilhosamente vazia. Desci o norte do Chile e depois a Argentina, com a paisagem a deslizar do deserto à estepe ao granito. El Chaltén, a pequena aldeia de trekking ao pé do Fitz Roy, tornou-se o meu lugar preferido de toda a viagem — sais do hostel e já estás no trilho — enquanto do outro lado da fronteira, Torres del Paine, no Chile, me ofereceu o género de vento que te reorganiza a cara.
As distâncias, aqui, são brutais, e os autocarros são a tua boia de salvação. Se o orçamento o permitir, oferece-te um lugar cama para os trajetos noturnos — reclina-se quase na horizontal, e um percurso de vinte horas torna-se suportável em vez de memorável pelas piores razões. As fronteiras passam-se por via terrestre, devagar e à custa de carimbos; as regras e os vistos mudam consoante a nacionalidade e ao longo do tempo, por isso verifica as condições do momento antes de partir em vez de te fiares num post de fórum com três anos.
A Colômbia: o final cheio de calor
Guardei a Colômbia para o fim, no norte, como uma recompensa: a energia cinzenta de Bogotá, Medellín a reinventar-se na encosta da colina, e depois Cartagena — o calor, a cor, o sal no ar, as Caraíbas a encolher os ombros perante o frio que eu tinha deixado para trás. Tinham-me carregado de avisos antes da América do Sul e, sim, mantens o bom senso urbano do costume — vigia a tua mochila, apanha táxis registados ou a app à noite, não exibas os teus objetos de valor. Mas a catástrofe que toda a gente anunciava nunca chegou. O bom senso fez o grosso do trabalho.
📶 O conselho de Romain
Nesta rota vais fazer malabarismos com várias moedas e vários países, por isso resolve isto de uma vez por todas e deixa de pensar no assunto. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (na UE/EEE aplica-se o roam-like-at-home; noutros sítios, um eSIM local mantém-te as reservas, os autocarros e o contacto). Descarrega os mapas offline do altiplano e da Patagónia antes de perderes a rede, e ficas a postos.
O que ficar a saber
O gringo trail funciona porque as partes difíceis — a altitude, as distâncias, esses autocarros intermináveis — são precisamente o que te compra a liberdade. Acordas sem saber em que cidade vais dormir, e isso deixa de meter medo para passar a ser o melhor momento. Respeita a altitude, almofada os trajetos de autocarro, mantém um olho aberto nas cidades, e deixa o resto desenrolar-se. Três meses, uma mochila, um continente que parecia maior a cada dia que passava.
— Romain, ainda com sal nos sapatos.