O São Patrício em Dublin: a Irlanda de verde

Já tinha cruzado o Dia de São Patrício por todo o lado primeiro — a cerveja tingida de verde num bar de Boston, um rio virado esmeralda em Chicago, trevos de plástico em gente incapaz de apontar a Irlanda no mapa. Por isso vir a Dublin para o verdadeiro, no dia 17 de março, era um pouco como conhecer uma celebridade na sua própria cozinha. A lenda é barulhenta lá fora. Aqui, é apenas o feriado nacional, e é mais antiga e mais estranha do que os desfiles deixam crer.
Patrício é o santo padroeiro, uma figura do século V entrelaçada de lendas, e o 17 de março é o dia em que o país põe o seu nome em destaque. O que cresceu à volta foi o St Patrick's Festival — não um dia mas vários, espalhados por Dublin em meados de março, com um grande desfile a atravessar o centro como espinha dorsal. Vim pelo desfile e fiquei pelo que há por baixo: a música nos pubs, a chuva, e uma cidade que vira para uma certa tonalidade de verde durante uma semana.
O desfile, e uma cidade que transborda
Na manhã do dia 17, o centro de Dublin não se enche, transborda. O percurso do desfile — em pleno coração da cidade — comprime-se em várias filas horas antes, com as famílias a acampar nos passeios com termos de chá e miúdos de chapéus de duende grandes demais. O cortejo, esse, é metais, é pompa, são grupos de dança e o tipo de carros alegóricos feitos em casa que te fazem sorrir mesmo contra vontade. É uma multidão feroz e bem-disposta, e ou te entregas a ela, ou voltas para casa.
«Lá fora pintam o rio de verde; em Dublin, são as pessoas que ganham essa cor, e não estão a brincar.»
Uma palavra sobre a ligação, porque é precisamente aí que o festival a põe à prova. A Irlanda está na UE, por isso um plano europeu cobre-te aqui graças ao roam-like-at-home — sem cartão SIM irlandês à parte, o teu plano funciona como em casa. Essa é a boa notícia. A armadilha não é o roaming, é a densidade bruta: junta duzentas mil pessoas no percurso, todas a filmar e a publicar ao mesmo tempo, e a rede engasga-se, simplesmente. No dia 17, à volta de Temple Bar e do desfile, as minhas barras estavam cheias e nada passava — mensagens bloqueadas, mapa a rodar no vazio. Por isso fiz o óbvio: combinei um ponto de encontro com os meus amigos na véspera, fiz uma captura de ecrã, e deixei de contar com um sinal ao vivo no meio da multidão.
Temple Bar, e onde está mesmo a música
Temple Bar é o postal — as pedras da calçada, as fachadas de pubs vermelhas e amarelas, as flores suspensas, a primeira fotografia de todos os guias. É também, no São Patrício, ombro contra ombro e francamente caro; uma imperial ali em meados de março custa o que custaria um jantar noutro sítio. Bebi uma, pelo ritual, e depois fiz o que os dublinenses sugerem em voz baixa: caminhei umas ruas mais além. As boas sessões de trad — a música tradicional, violino, tin whistle e bodhrán — acontecem em pubs mais modestos onde o que se toca conta mais do que o cenário, onde ninguém anunciou nada e aquilo começa na mesma, a um canto, a meio da noite.
Foi aí que o dia aterrou para mim. Uma Guinness a assentar lentamente no copo, uma sala aquecida a turfa, e uma sessão que sobe, que sobe, até todo o pub bater com o pé no chão. Já não havia grande gente a filmar, naquele momento, e estava certo. O meu telemóvel ganhou o seu lugar antes e depois — encontrar a sessão seguinte, partilhar um táxi, uma videochamada para casa erguida em direção ao barulho para que o ouvissem — mas no auge da música ficou no meu bolso, e era mesmo essa a ideia.
O verde, a chuva, e o tempo honesto
Avisam-te sobre o tempo irlandês de março, e não se enganam: é caprichoso, quatro humores antes do meio-dia, sol, um aguaceiro e um vento vindo do Liffey que encontra cada fresta do teu casaco. Vestes-te para tudo e refugias-te debaixo de um alpendre quando o céu se abre. Quanto ao famoso rio verde — é sobretudo um floreado americano, o truque de magia de Chicago. Dublin é mais sóbria nisso; aqui, a cor vive na multidão, nos festões, nas camisolas, não na água. E isso agradou-me, aliás. Menos um golpe de efeito do que uma cidade que veste as suas próprias cores.
📶 O conselho de Thomas
A Irlanda está na UE, por isso um plano europeu cobre o São Patrício graças ao roam-like-at-home — não é preciso cartão local. Mas o verdadeiro problema no dia 17 não é o roaming, é a multidão: Temple Bar e o percurso do desfile ficam tão densos que até um bom sinal encrava. Por isso prevê tudo offline — combinem um ponto de encontro e mete-o em captura de ecrã, descarrega o teu mapa antes de mergulhar no centro, e guarda bateria para a longa noite de pub. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (para uma viagem europeia mais alargada, um plano UE/EEE também serve).
O que levo comigo
O São Patrício em Dublin devolveu-me a festa que julgava conhecer. Tira a cerveja verde e os trevos de plástico, e o que resta é verdadeiramente bonito: uma cidade que enche as suas próprias ruas, um desfile feito de metais e de atrevimento artesanal, e depois, uma sessão num pub de sala das traseiras que nenhum postal te consegue vender. Vem pelo dia 17, mas fica uns dias para o resto do festival, passa para lá de Temple Bar para encontrar a música, e não lutes contra a rede morta no meio da multidão — combinem um ponto de encontro, e depois levanta os olhos. De qualquer forma, o melhor desse dia nunca esteve no ecrã.
— Thomas, algures atrás de Temple Bar, a seguir um violino por uma viela.