Mercados e ruelas: os lugares mais fotogénicos
Tenho no telemóvel uma pasta chamada « cor ». Está cheia de paredes. Não de monumentos, não de panorâmicas famosas — apenas paredes: um pano de cobalto em Chefchaouen, uma fachada cor de manga a descascar em Burano, uma porta de Marraquexe exatamente do vermelho de uma romã aberta. Algures entre um souk e uma ruela soalheira, acabei por reparar que os sítios mais fotogénicos que encontro raramente são os dos postais. São aqueles onde alguém vive. Onde uma mulher varre a soleira, onde um gato se apropria do quadrado de pedra morna, onde a tinta é viva porque é refeita, à mão, todos os anos.
Este é um texto sobre a caça à cor — e sobre a pequena etiqueta que te permite fazê-la sem transformar um bairro num cenário de filmagem. Porque uma bela ruela não é um fundo. É uma janela de cozinha, uma montra, uma soleira. Toda a arte está em voltar para casa com a imagem e deixar o sítio exatamente como o encontraste.
Quando uma ruela se torna um quadro
Algumas ficam comigo. A medina e os souks de Marraquexe: um labirinto de pirâmides de especiarias, de candeeiros suspensos, de lã tingida a secar por cima de ti, a luz a cair em ripas através dos telhados de canas. Chefchaouen, a cidade azul do Rif marroquino, onde as vielas estão lavadas em todos os tons de índigo e onde um único vaso de gerânio vermelho faz todo o trabalho. Jodhpur, a « cidade azul » da Índia, onde bairros inteiros rebrilham num azul-centáurea sob o forte. Burano, perto de Veneza, onde as casas dos pescadores estão pintadas com cores vivas e deliberadamente dissonantes — verde-limão ao lado de coral ao lado de ultramar profundo — para que um marinheiro reencontre a sua porta na bruma da lagoa.
E as construídas em encosta: a cidade velha de Hoi An, no Vietname, iluminada por lanternas, soberba ao cair da tarde e sobretudo perto da lua cheia, quando os lampiões de papel se acendem sobre o rio e toda a rua se tinge de ouro; Valparaíso, no Chile, um emaranhado de street art que desce pelas encostas; Guanajuato, no México, empilhada em tons sorvete ao longo de uma ravina; e o Caminito de La Boca, em Buenos Aires, uma curta torrente de chapa ondulada em cores primárias. A ressalva honesta: a cor e a animação variam. Um céu cinzento achata Burano; as lanternas de Hoi An são coisa de fim de tarde; certas ruelas de souk estão desertas num feriado e apinhadas na manhã seguinte. Metade do ofício é chegar à hora certa e aceitar esperar pela luz.
« Uma bela ruela não é um fundo. É uma janela de cozinha, uma montra, uma soleira. »
Chegar a estas ruelas já é uma pequena aventura, e é aí que me apoio num pouco de data. As medinas foram feitas para te perderes — as ruas enrolam-se, voltam atrás, terminam em becos sem saída, e o GPS perde mesmo a cabeça sob os telhados apertados, o ponto azul a vaguear através das paredes. Um mapa em direto não te salva por completo (nada te salva em Marraquexe, e é todo o encanto), mas leva-me à entrada do bairro, deixa-me confirmar se o mercado da manhã está mesmo a acontecer hoje, e permite-me pousar um marcador na porta exata onde quero voltar com melhor luz. Depois guardo o telemóvel e deixo-me perder um pouco, de propósito.
Fotografar um lugar onde se vive
Eis a parte que mais me importa. Estas ruelas são lugares de trabalho e de vida, não palcos de filmagem, e isso sente-se no acolhimento que te fazem. Por isso: não bloqueies a passagem. Uma viela de souk tem apenas a largura de um ombro e é o caminho de alguém, a sua rota de entregas — encosta-te a um recanto para fazer a tua foto, tira-a, segue em frente. Não trates as portas privadas como acessórios; aquela magnífica porta azul com tachas é muitas vezes a porta de entrada de alguém, e demorares-te a posar diante dela é o género de coisa que, visto de dentro, cansa depressa. Se uma pessoa está no enquadramento e reconhecível, cruza o olhar e pede — um gesto para a máquina e um sorriso atravessam quase todas as línguas. Muitos dirão que sim, calorosamente. Alguns dirão que não, e não é uma resposta inteira.
Com os comerciantes, a cortesia mais simples é também a mais bonita: aquela pirâmide de açafrão, aquela parede de lanternas, aquele expositor de lenços tingidos é o seu ganha-pão e a sua montra, arranjados com cuidado. Pede antes de os fotografar. E às vezes — não como uma portagem, não como uma troca pelo clique, mas porque passaste dez minutos a admirar a banca de alguém — compra simplesmente alguma coisa. Um punhado de tâmaras, um pequeno candeeiro, o lenço em que não paravas de tocar. Muda toda a textura do encontro, e voltas para casa com mais do que um ficheiro.
O pequeno equipamento e a hora paciente
Não precisas de grande coisa. Os telemóveis são extraordinários com esta luz, e uma máquina discreta atrai menos atenção do que uma grande teleobjetiva apontada ao fundo de uma viela calma — e isso conta mais do que qualquer megapíxel. Fotografo cedo ou ao fim da tarde, quando o sol está baixo, a cor fica quente e as ruas estão mais calmas; o pleno meio-dia esmaga tudo e atulha o enquadramento. Procuro o detalhe à escala humana em vez do grande plano « para conteúdo » — as mãos que pesam as azeitonas, o estendal, o gato — porque é isso que se parecia verdadeiramente com o lugar. E guardo uma regra acima das outras: se conseguir a foto obrigar alguém a esperar, a afastar-se ou a representar um papel para mim, a foto não o vale. A ruela era bonita antes de eu chegar. Todo o desafio é deixá-la assim.
📶 O conselho da Nora
Marca as portas e os mercados que tens em vista antes de partires a vaguear, e depois confia no beco sem saída — é aí que se escondem as paredes mais bonitas. Confirma a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano na página de destinos (se o teu plano já for europeu, o roam-like-at-home segue-te pela Europa; noutros sítios, um eSIM local mantém-te o reconhecimento e a partilha).
O que reter
Caça a cor, mesmo — o cobalto, as lanternas, a chapa pintada. Mas caça-a com doçura. Vem às horas suaves, pede antes de apontares a objetiva a um rosto ou a uma banca, mantém-te fora do caminho de quem só quer voltar a casa, e compra as tâmaras. As minhas imagens mais bonitas são as tiradas com um sim, num lugar que mal reparou na minha presença. É todo o segredo: a foto é melhor quando o momento foi gentil.
— Nora, que continua a juntar à pasta « cor », uma parede de cada vez.