Coreia do Sul: Seul, Busan e a ilha de Jeju
Aterrei em Incheon um pouco depois do amanhecer, e a primeira coisa que a Coreia fez foi reorganizar a minha ideia de velocidade. O comboio do aeroporto desliza até Seul quase sem ruído, e na carruagem toda a gente já vive três vidas ao mesmo tempo no ecrã. No tempo que levei a voltar à luz da manhã, o meu telemóvel já estava online há uma hora sem que eu tivesse mexido um dedo. Parece insignificante. Deu o tom de toda a viagem: um país que vibra.
Tinha vindo pelo cliché ouvido cem vezes — a tradição e a hipermodernidade na mesma carruagem de metro — e parti convencida de que o cliché fica aquém da verdade. Aqui, não alternas entre o antigo e o novo. Ficas dentro dos dois ao mesmo tempo, muitas vezes no mesmo cruzamento, muitas vezes no mesmo fôlego.
Seul, onde o palácio e a skyline partilham uma parede
A minha primeira manhã pertenceu a Gyeongbokgung. O grande palácio abre-se sobre um imenso pátio de pedra, e por trás dos seus telhados de telhas recurvadas ergue-se o Bugaksan, a montanha que vela por esta cidade há seis séculos. Tinha acertado a hora pela rendição da guarda — os tambores, a coreografia lenta, os trajes azul-profundo e vermelho — e depois fiquei ali, simplesmente, enquanto as torres de escritórios apanhavam a luz mesmo atrás do portão. Visitantes em hanbok alugado passavam, telemóvel no alto, e ninguém parecia achar estranha a colisão. É só uma terça-feira em Seul.
Dali, subi até Bukchon, a aldeia hanok onde as ruelas estreitas de casas de madeira e telha se dobram sobre uma encosta entre dois palácios. Depois desci a Myeongdong, tudo néons, cuidados de pele e vapor de comida de rua, e mais tarde atravessei o rio até Hongdae, onde os músicos de rua e os estudantes mantêm a noite acordada. Acabei, claro, no topo do Namsan, a ver a torre N Seoul iluminar-se enquanto todo o vale de luzes respirava por baixo de mim.
« Aqui, não escolhes entre o palácio e a skyline — ficas dentro dos dois ao mesmo tempo. »
A Coreia é um dos lugares mais conectados do planeta, e sente-se logo à chegada: rede a sério no fundo dos túneis do metro, wifi gratuito nos cafés e nas estações, quase nenhum sítio onde uma chamada caia. Por isso, sê honesta contigo: aqui, os dados não são bem um problema. O que a minha eSIM me deu foi mais simples e mais útil do que um salvamento: estava operacional no segundo em que desci do avião em Incheon, sem fila ao balcão e sem ter de mexer num cartão SIM físico. Depois, limitou-se a fazer correr tranquilamente os mapas do metro de Seul, a navegação entre os palácios, e a máquina fotográfica que esticava por cima de cada ementa intraduzível.
Busan e Jeju, a costa e o vulcão
O KTX deixou-me em Busan em pouco mais de duas horas, e a cidade pareceu-me logo mais descontraída, o sal no ar. Subi até Gamcheon, a aldeia cultural que escorre pela colina em socalcos de casas pintadas — azuis-pastel, rosas e amarelos empilhados como uma caixa de rebuçados, ruelas cosidas de murais e pequenas galerias. Perdi ali uma tarde inteira, com gosto. Lá em baixo, à beira da água, o mercado de peixe de Jagalchi rugia de vendedores, tanques e cheiro a pesca da manhã, e a longa praia de Haeundae deu-me a minha primeira verdadeira pausa da viagem.
Jeju foi o capítulo mais sereno. A ilha é vulcânica até ao osso — muretes de basalto negro à volta dos campos, tubos de lava classificados pela UNESCO que serpenteiam debaixo da terra, e o Hallasan, o vulcão adormecido, plantado no centro de tudo. Ao longo da costa, espreitava as haenyeo, essas mulheres mergulhadoras em apneia que colhem o mar só com o fôlego há gerações. Não subi o Hallasan, e não cheguei nem aos túmulos reais de Gyeongju nem ao templo Bulguksa desta vez — a Coreia é generosa o suficiente para guardar coisas em reserva para a próxima.
A mesa, o banho, e uma fronteira silenciosa
Entre as visitas, o país alimentou-me bem. Um churrasco coreano com amigos de amigos transformou-se em horas a grelhar e a rir, kimchi e uma dúzia de pequenos acompanhamentos repostos sem que ninguém pedisse. Cozi-me até ficar rosada num jjimjilbang, o banho público onde toda a cidade parece vir abrandar. E sim, cedi a um café temático — há um para gatos, um para ovelhas, um em forma de desenho animado, e resistir é inútil.
Passei também uma meia-jornada mais grave na DMZ, a zona desmilitarizada ao longo da linha que divide a península coreana desde 1953. É um lugar estranho e parado — miradouros de observação, vedações, um silêncio que não esperamos — e pede respeito mais do que comentário. Ali, com os néons de Seul a apenas uma hora atrás de mim, o contraste falava por si.
📶 O conselho da Léa
A Coreia tem redes das melhores do mundo, por isso, uma vez no terreno, a ligação é a última das tuas preocupações — mas mesmo assim queres aterrar já online em Incheon, e não andar à procura de um quiosque SIM. Prepara-a antes de levantares voo. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu tarifário na página de destinos (fora da UE, por isso o roam-like-at-home não se aplica aqui — instala uma eSIM local/regional antes de aterrar; para uma escala europeia à parte, um tarifário UE/EEE serve).
O que levo comigo
A Coreia do Sul é esse lugar raro onde o futuro e o passado não discutem. Um telhado de palácio e uma torre de vidro, uma tigela de kimchi e um café gerido por robôs, uma fronteira muda e uma cidade que nunca se apaga — tudo isto vive no mesmo plano de metro. Tinha chegado à espera de um contraste e parti compreendendo-o como uma conversa. Traz o teu apetite, os teus sapatos de caminhada, e um telemóvel já acordado.
— Léa, ainda a cheirar vagamente a alho grelhado e a sal de mar.