Istambul a cavalo sobre dois continentes, depois rumo à Capadócia

Ganhei uma pequena reputação a assinar « entre dois comboios » — Japão, Tailândia, Vietname. Por isso é quase uma traição confessar que esta história começa num ferry. Mas nenhum comboio faz o que faz uma travessia do Bósforo: em vinte minutos, pelo preço de uma ficha, deslizas da Europa para a Ásia, um copo de chá na mão e gaivotas suspensas no ar ao longo da amurada. Istambul é a única cidade que conheço onde mudas de continente como outros mudam de bairro.
Tinha-me dado uma semana. Três ou quatro dias para Istambul, depois um longo salto para sul, até à Capadócia, para a parte de que toda a gente regressa a falar: os balões de ar quente. Sou uma adepta da viagem lenta no fundo da alma, por isso resisti primeiro ao voo interno — mas já volto a isso, porque esse compromisso conta mais do que eu pensava.
Uma cidade a cavalo sobre dois continentes
Não se visita verdadeiramente Istambul: deixamo-nos levar por ela. Numa manhã, caminhei do Grande Bazar — umas sessenta ruelas cobertas, um labirinto no qual me perdi duas vezes com gosto — até Santa Sofia, esse edifício impossível que foi igreja, mesquita, museu e depois mesquita de novo, cada século deixando a sua caligrafia nas paredes. À tarde, estava do lado asiático, em Kadıköy, a comer peixe à beira de água, tecnicamente noutro continente, e sempre dentro do mesmo bilhete de autocarro.
Quanto à ligação, digo-o com franqueza, é a parte fácil. Istambul é uma cidade imensa, moderna, hiperligada: o 4G é sólido praticamente em todo o lado, muitas vezes mesmo rápido, e aguentou até ao fundo do Grande Bazar, onde eu contava com uma zona morta. O meu eSIM tinha-se agarrado a uma rede antes mesmo de eu sair do átrio do aeroporto, o que me permitiu consultar os horários dos ferries, marcar um ponto no café na esplanada que uma amiga me jurava imperdível e traduzir uma ementa ali na hora. A cidade torna fácil manter o fio.
« Em Istambul, mudas de continente como outros mudam de bairro. »
O longo trajeto para sul
A Capadócia fica no centro do país, a uns bons 700 quilómetros de Istambul — demasiado longe para uma excursão de um dia, e não existe comboio rápido direto, o que entristeceu a romântica do carril que eu sou. Então escolhe-se. O autocarro noturno é a resposta da viagem lenta: as camionetas turcas de longo curso são mesmo confortáveis, há um steward, chá, um ecrã, e acordamos mais ou menos onde é preciso ao fim de uma dezena de horas. Ou voa-se até Kayseri ou Nevşehir em cerca de hora e meia, e ganha-se meio dia.
Vou ser honesta sobre a razão pela qual cedi e apanhei o avião. Não foi impaciência — foram os balões. Levantam voo às primeiras luzes, e só quando o tempo o permite, por isso a margem de erro é fina. Queria chegar descansada, com um dia de folga de avanço, em vez de desembarcar de um autocarro noturno para emendar logo num despertador às 4 da manhã. Na estrada para sul, a rede fica mais rarefeita entre as cidades — perfeito para a música, menos fiável para o mapa em direto — por isso tinha guardado um mapa offline dos vales antes de sair da cidade, o reflexo que me ensinaram os comboios noturnos.
Balões por cima do tufo
Nada te prepara verdadeiramente para isto. Estás de pé no frio e na escuridão de um vale de Göreme, depois os queimadores começam a rugir e, um a um, os balões enchem-se, iluminam-se por dentro e elevam-se — às dezenas, derivando por cima das chaminés de fada e do tufo macio, esculpido pelo vento, enquanto o sol transpõe a crista. Tinha reservado o meu horário dois dias antes, e isso revelou-se a coisa mais esperta de toda a semana: os voos dependem do tempo e cancelam-se sem cerimónia, e guardar uma manhã de reserva fazia com que um cancelamento ao amanhecer não fosse um drama, apenas uma manhã preguiçosa e uma segunda tentativa.
📶 A dica de Léa
Istambul quase não exige preparação, do lado da ligação — o 4G é sólido e rápido em toda a cidade, por isso podes vaguear e improvisar. A Capadócia é onde um pouco de antecipação compensa: reserva o teu balão dois dias antes (os horários são limitados e os cancelamentos por causa do tempo frequentes — um dia de reserva salva a viagem), e descarrega um mapa offline dos vales de Göreme antes de partir, porque a cobertura fica mais rarefeita nas estradas entre as cidades. Instala o teu eSIM antes de aterrar para estares ligada no segundo em que sais do avião. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano Turquia na página destinos (e se a tua próxima viagem for na UE, podes usar o nosso plano Europa em alternativa).
O que retenho
A Turquia ofereceu-me as duas metades da minha forma de viajar: uma cidade suficientemente densa para engolir dias inteiros, onde manter-me ligada não exige esforço nenhum e onde se pode seguir o mais pequeno desejo, depois uma paisagem silenciosa e fora do mundo que exige planear e respeitar o tempo. Dois continentes e um céu cheio de balões numa única semana — com rede quanto baste, nos momentos certos, para partilhar tudo isto sem nunca fixar o ecrã.
— Léa, em breve outra vez entre dois comboios, mas contente por ter feito uma exceção por um ferry e um balão.