Road trip no Iucatão: cenotes, cidades maias e longas estradas

Aluguei o carro em Cancún, atirei a mala para o banco de trás e, em vinte minutos, os hotéis do aeroporto tinham dado lugar a uma longa fita de asfalto a correr a direito pela selva. É isto, o Iucatão: mal sais da costa e a península engole-te por inteiro. Plano, verde, escaldante e magnificamente vazio. Baixei os vidros, encontrei uma rádio a passar cumbia e deixei duas semanas de estrada abrirem-se à minha frente.
Sou viajante de estrada até à ponta dos dedos. Dá-me um carro, um plano aproximado e o depósito cheio, e fico feliz. Mas o Iucatão ensinou-me a respeitar o entretanto. As distâncias parecem curtas no mapa e revelam-se longas ao volante — o calor, as estradas rectilíneas, os topes (aqueles lombas que te espreitam à entrada de cada aldeia). Não se apressa esta península. Instala-se nela.
Os cenotes, e a arte de te perderes um pouco
A minha primeira verdadeira paragem foi um cenote perto de Valladolid — um daqueles abismos de calcário inundados que os maias consideravam sagrados, e percebo porquê. Desces uma escada de pedra escorregadia até uma catedral de água fresca, a luz cai por um buraco no tecto, raízes pendem como lustres. Depois de uma manhã de estrada poeirenta, deslizar para dentro daquela água fria e límpida é quase uma experiência religiosa.
Os cenotes mais bonitos raramente são os mais conhecidos. Encontrei o meu seguindo uma placa pintada à mão ao fundo de um caminho de terra, pagando alguns pesos a uma família instalada atrás de uma mesa de campismo, e tendo o sítio quase só para mim. Só que, ali, o meu telemóvel mostrava uma barra que ia e vinha. Tinha descarregado um mapa offline na véspera, em Valladolid, e esse pequeno reflexo salvou-me duas vezes — uma para encontrar o cenote, outra para reencontrar uma estrada que reconhecia mesmo.
Os grandes nomes maias, e os mais pequenos
Não se vai ao Iucatão saltando Chichén Itzá. Cheguei lá à hora de abertura, antes dos autocarros de turistas, e vi a grande pirâmide de Kukulcán agarrar a primeira luz rasante. Merece a sua reputação — mas às dez horas a multidão e o calor chegam juntos, por isso vai cedo ou não vás de todo. Tulum foi outra forma de magia: uma cidade maia empoleirada numa falésia sobre as Caraíbas, ruínas cor de osso sobre uma água turquesa impossível. Fiquei muito tempo na borda, a não fazer nada de útil.
« Nestas estradas, o sinal vai e vem — por isso deixei o GPS viver no meu telemóvel, descarregado na véspera, e parei de me preocupar com isso. »
Entre os sítios estrela, não parava de parar pelos que não estão em mapa nenhum — uma igreja a desfazer-se numa aldeia meio vazia, uma banca à beira da estrada que vendia uma cochinita pibil que estragou todos os tacos que comi a seguir. Foi aí que a ligação contava, discretamente. Nas cidades e à volta dos sítios turísticos, o meu eSIM mantinha um sinal sólido — suficiente para abrir avaliações, verificar horários, enviar à minha irmã uma foto de pirâmide que ela nunca acreditaria de outra forma. Nas longas rectas da península, reduzia-se a nada, e aprendi a prevê-lo em vez de lutar contra.
Mérida, e abrandar a sério
Mérida foi onde estacionei o carro durante uns dias e simplesmente andei a pé. O coração colonial do Iucatão, todo em fachadas pastel e praças sombreadas, com marimba a escapar-se das portas num domingo. Sentei-me em cafés, comi demasiado, e aproveitei a boa rede da cidade para planear mesmo o resto — reservar uma guesthouse perto da costa, escrever a um guia, ligar a casa em videochamada de um banco da Plaza Grande enquanto a luz virava a ouro. Na cidade, os dados funcionam, ponto, e deixas de pensar nisso.
Depois, de volta ao carro para a última recta até à costa das Caraíbas — praias das Caraíbas cor de postal, aquele tipo de água que te faz suspeitar de uma retoca. Acabei a viagem com areia debaixo dos pés e um para-brisas cheio de insectos de selva esmagados, que é exactamente como deve terminar um bom road trip.
📶 A dica de Sarah
Em road trip no Iucatão, o teu telemóvel é o teu copiloto — por isso configura-o antes mesmo de levantares o carro alugado. Instala o teu eSIM e descarrega um mapa offline de toda a península enquanto ainda estás num bom wifi, porque a rede vai abandonar-te nas longas estradas entre as cidades. Conta com bons dados nas cidades e à volta dos grandes sítios, aleatórios a inexistentes pelo meio, e planeia as tuas viragens em conformidade. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano para o México na página de destinos (e se a tua próxima viagem for na Europa, um único plano regional UE cobre todo o continente).
O que fica
O Iucatão não é um sítio que se assinala numa lista. É um ritmo — longas estradas escaldantes, água fria e sagrada, pedras velhas e tacos quentes — e toda a arte está em deixá-lo dar o compasso. Mantém o teu mapa descarregado, mantém os teus dados prontos para as cidades, e deixa que as porções vazias fiquem vazias. Ali, alguns dos mais belos momentos são aqueles em que o ecrã já não mostra barra nenhuma.
— Sarah, algures numa estrada a direito pela selva, com os vidros baixados.