Equador: Quito em altitude, o meio do mundo e as Galápagos

Já tinha feito a Argentina, já tinha feito o Chile, e julgava-me suficientemente íntimo dos Andes para ignorar os avisos. O Equador pôs-me no meu lugar logo no primeiro dia. Aterras em Quito a uns 2 850 metros, e a altitude não te pede a opinião: subi um andar no hotel, pousei a mochila e tive de me sentar na cama como quem acaba de correr uma maratona. Bem-vindo ao telhado do equador.
O truque que toda a gente te repete acaba por ser verdade — vai com calma no primeiro dia, bebe água até ao enjoo, esquece o álcool e as grandes refeições. Por isso percorri a cidade velha ao ritmo de um avô ao domingo: as igrejas coloniais, as praças, o cheiro a pão fresco e a tubos de escape, e um mate de coca que ainda não sei bem se serviu para alguma coisa, mas que era muito cerimonioso. À noite, a cabeça tinha deixado de martelar e Quito tinha-me discretamente conquistado.
Um pé em cada hemisfério
Não podes vir até aqui sem fazer a coisa turística, por isso apanhei um táxi até à Mitad del Mundo, o monumento que marca o equador mesmo a norte da cidade. Sim, é um bocado um circo — bancas de recordações, a fotografia obrigatória com um pé no hemisfério norte e outro no sul. Tirei a fotografia. Tirei-a duas vezes. De pé sobre a linha da latitude zero, em pleno centro do planeta, com os Andes empilhados em redor — piroso ou não, deu-me um arrepiozinho, e tinha enviado a fotografia ao meu irmão antes mesmo de sair da praça.
« Um pé a norte, um pé a sul, e a 4G a abarrotar de barras — é o único sítio na Terra onde podes legendar uma fotografia com tanta honestidade. »
E a legenda era honesta, porque em Quito a ligação é mesmo correta. A 4G na cidade aguentou-se bem para mim — mapas, transporte com motorista, envio de fotografias, tudo e mais alguma coisa. Vale a pena saber, porque no segundo em que deixas a capital a história muda, e quero ser franco contigo quanto a isso: estamos no Equador, não numa garantia de rede. Pormenor prático que vais apreciar — a moeda aqui é o dólar americano, o verdadeiro, por isso zero ginástica mental de conversão e as caixas multibanco cospem-te notas verdes a sério.
As Galápagos, e o silêncio do « sem rede »
Depois veio a parte pela qual eu tinha atravessado um continente: as Galápagos. E é aqui que vou ser honesto, porque contar-te outra coisa seria prestar-te um mau serviço — nas ilhas, a rede vai do caprichoso ao inexistente. Nas cidades principais ainda apanhas alguma coisa; num barco, num trilho, a fazer snorkeling ao largo de uma praia, não tens nada, e é exatamente assim que tem de ser. Não se negoceia o plano de dados com uma tartaruga gigante.
A fauna está-se nas tintas para a tua existência, e é nisso que está toda a magia. Tartarugas gigantes que atravessam os planaltos como rochedos em câmara lenta. Atobás-de-pés-azuis que fazem a sua pequena dança de sedução absurda, as patas mais azuis do que qualquer filtro saberia falsificar. Leões-marinhos esparramados sobre os pontões e os bancos como se pagassem renda. É um parque nacional protegido, por isso reservas as tuas excursões ou o teu cruzeiro com antecedência e partes com guias credenciados — não é burocracia, é a razão pela qual isto continua tão extraordinário. Meti o telemóvel no saco estanque e não senti a falta dele um único segundo.
Descer até ao verde
No regresso, acrescentei uns dias na Amazónia, e a lição de conectividade repetiu-se, desta vez em maiúsculas: na floresta, estás fora de rede, ponto final. Tinha avisado a família, descarregado os mapas, dito às pessoas para não se preocuparem se eu desaparecesse — e depois deixei o rio e os bugios-uivadores assumirem o comando. Voltar a uma aldeia com uma barra de rede, o telemóvel a acordar a vibrar com três dias de mensagens, é quase violento depois de tanto verde.
📶 A dica de Romain
Instala o teu eSIM antes de aterrares em Quito, para que a boa 4G da cidade funcione no segundo em que sais do aeroporto — é aí que queres um mapa e um transporte com motorista. Mas vai com lucidez: a ligação é sólida em Quito, fraca nas Galápagos e quase ausente na Amazónia, por isso descarrega mapas offline e avisa os teus que vais desaparecer por lá. Verifica a compatibilidade do teu telemóvel em 30 segundos aqui e encontra o teu plano Equador na página de destinos. (Vais juntar uma etapa europeia à mesma viagem? O teu roam-like-at-home UE/EEE já cobre os planos europeus — vê as opções Europa — mas isso não se aplica aqui, o Equador fica bem fora.)
O que eu levo daqui
O Equador encaixa uma quantidade absurda de coisas num país pequeno: uma capital nas nuvens, o meio literal do mundo, um arquipélago onde os animais mandam, e uma floresta que te engole por inteiro. A conectividade acompanha a geografia — generosa na cidade, parcimoniosa por todo o lado onde é selvagem — e no dia em que deixei de lutar contra isso para começar a preparar-me, os momentos silenciosos tornaram-se os melhores. Instala-te com esperteza em Quito, e depois deixa as ilhas e a selva levarem-te a rede. Dão-te algo melhor em troca.
— Romain, algures sobre o equador, os dois pés finalmente do mesmo lado.